terça-feira, 22 de outubro de 2013

Carta a meu filho

Meu filho, dito esta carta para que você saiba que estou vivo. Quando você me estendeu a taça envenenada que me liquidou a existência, não pensávamos nisso.

Nem você, nem eu.

A idéia da morte vagueava longe de mim, porque esperava de suas mãos apenas o remédio anestesiante para a minha enxaqueca.

Entendi tudo, porém, quando você, transtornado, cerrou subitamente a porta e exclamou com frieza:

- Morre, velho!

As convulsões que me tomavam de improviso, traumatizavam-me a cabeça... Era como se afiada navalha me cortasse as vísceras num braseiro de dor. Pude ainda, no entanto, reunir minhas forças em suprema ansiedade e contemplar você, diante de meus olhos.

Suas palavras ressoavam-me aos ouvidos: - "morre, velho!"

Era tudo o que você, alterado e irreconhecível, tinha agora a dizer.

Entretanto, o amor em minh'alma era o mesmo. Tornei à noite recuada quando o afaguei pela primeira vez. Sua mãezinha dormia, extenuada... Pequenino e tenro de encontro ao meu peito, senti em você meu próprio coração a vagir nos braços...

E as recordações desfilaram, sucessivas.

Você, qual passarinho contente a abrigar-se em meu colo, o álbum de fotografias em que sua imagem apresentava desenvolvimento gradativo em todas as posições, as festas de aniversário e os bolos coloridos enfeitados de velas que seus lábios miúdos apagavam sempre numa explosão de alegria... Rememorei nossa velha casa, a princípio humilde e pobre, que o meu suor convertera em larga habitação, rica e farta... Agoniado, recordei incidentes, desde muito esquecidos, nos quais me observava expulsando crianças ternas e maltrapilhas do grande jardim de inverno para que nosso lar fosse apenas seu... Reencontrei-me, trabalhando, qual suarento animal, para que as facilidades do mundo nos atendessem as ilusões e os caprichos... Em todos os quadros a se me reavivarem na lembrança, era você o grande soberano de nosso pequeno mundo...

O passado continuou a desdobrar-se dentro de mim. Revisei nossa luta para que os livros lhe modificassem a mente, o baldado esforço para que a mocidade se lhe erigisse em alicerce nobre ao futuro... De volta às antigas preocupações que me assaltavam, anotei-lhe, de novo, as extravagâncias contínuas, os aperitivos, os bailes, os prazeres, as companhias desaconselháveis, a rebeldia constante e o carro de luxo com que o presenteei num momento infeliz...

Filho do meu coração, tudo isso revi...

Dera-lhe todo o dinheiro que conseguira ajuntar, mas você desejava o resto. Nas vascas da morte, vi-o, ainda, mãos ansiosas, arrebatando-me o chaveiro para surripiar as últimas jóias de sua mãe...Vi perfeitamente quando você empalmou o dinheiro, que se mantinha fora de nossa conta bancária, e, porque não podia odiá-lo, orei - talvez com fervor e sinceridade pela primeira vez - rogando a Deus nos abençoasse e compreendendo, tardiamente, que a verdadeira felicidade de nossos filhos reside, antes de tudo, no trabalho e na educação com que lhes venhamos a honrar a vida.

Não dito esta carta para acusá-lo.


Nem de leve me passou pelo pensamento o propósito de anunciar-lhe o nome. Você continua sangue de meu sangue, coração de meu coração. Muitas vezes, ouvi dizer que há filhos criminosos, mas entendo hoje que, na maioria das circunstâncias, há, junto deles, pais delinqüentes por acreditarem muito mais na força do cofre que na riqueza do espírito, afogando-os, desde cedo, na sombra da preguiça e no vício da ingratidão. Não venho falar, assim, unicamente a você, porque seu erro é o meu erro igualmente. Falo também a outros pais, companheiros meus de esperança, para que se precatem contra o demônio do ouro desnecessário, porque todo ouro desnecessário, quando não busca o conselho da caridade, é tentação à loucura.

Há quem diga que somente as mães sabem amar e, realmente, o colo materno é uma bênção do paraíso. Entretanto, meu filho, os pais também amam e, por amar imensamente a você, dirijo-lhe a presente mensagem, afirmando-lhe estar em prece para que a nossa falta encontre socorro e tolerância nos tribunais da Divina Justiça, aos quais rogo me concedam, algum dia, a felicidade de tê-lo novamente ao meu lado, por retrato vivo de meu carinho... Então nós dois juntos, de passo acertado no trabalho e no bem, aprenderemos, enfim, como servir ao mundo, servindo a Deus.

J.

Fonte: O Espírito da Verdade - Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira - Cap. XXVII


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Desilusões - parte 3/3


Ao irmão afastado

Esperança
Dizes-te,
por vezes, 
sob desalento e cansaço e que já
não consegues 
abraçar 
qualquer tarefa 
na seara do
bem.

Entretanto, no íntimo, a voz da consciência 
te convida olvidar desenganos,
apagar ressentimentos, 
varrer amarguras e 
renovar a própria existência.

O estranho diálogo de ti para contigo prossegue,
adentro de ti mesmo e respondes que sofreste
decepções, que não encontraste clima adequado à
execução das tuas aspirações de ordem superior,
que te desencantaste com amigos desorientados em
matéria de espiritualidade, e, de outras vezes,
acusas-te por erros e quedas, dos quais não te sentes
com a precisa coragem de levantar.

Ainda assim, deixa que a consciência te fale ao
coração e reergue-te para as atividades do bem.

Qualquer desilusão é apelo à realidade e toda vez em
que nos reconhecemos em desacerto, isso é sinal de
que estamos progredindo em discernimento.

Não permitas que a ideia de fracasso anule os
créditos de tempo, em tuas mãos. 

Não abandones
a certeza de que podes trabalhar e servir, auxiliar e
melhorar, renovar e reconstruir.

Se o desânimo te congelou os ideais, acende a
chama da esperança, no próprio coração e reinicia a
cooperação, nas obras construtivas, das quais te
afastaste, impensadamente. 

Se paraste na trilha do
progresso, retoma a própria marcha, em demanda
ao alvo por atingir.

Não acredites em derrota e nem te admitas incapaz
de ser útil.

Esquece
agravos, preterições, ressentimentos e
tristezas inúteis, buscando caminho à frente.

Se a Divina Providência não acreditasse em tua
capacidade de elevação e refazimento, já teria
cassado as tuas possibilidades de serviço na Terra.

Pensa na vida imperecível e oferece uma nova
oportunidade a ti mesmo, procurando reaprender e
recomeçar.

Emmanuel

Fonte: Amigo — Emmanuel


domingo, 26 de maio de 2013

Desilusões - parte 2/3


Anotações da vida

Desilusões
Amigo
se reconhece
Não na hora que te agrade,
Mas no dia em cinza e vento
Quando ruge a tempestade.
- Milton da Cruz

Conversas? Em todas elas,
Olha as próprias diretrizes.
Modelas a mente alheia
Pelas palavras que dizes.
- Marcelo Gama

Alteia acima da injúria
A fé que guardas no bem;
Cada planta onde viceje
Só dá do fruto que tem.
- Sebastião Lasneau

Verifica o que semeias.
Toda colheita é segura.
Aquilo que procuramos
Vem sempre à nossa procura.
- Casimiro Cunha

Lição que se vê na Terra
Claramente definida:
Quem encurta garfo e prato
Alonga a bênção da vida.
- Lulu Parola

Coração,
serve e constrói,
Mesmo cansado e sozinho
Quem te afasta do trabalho
Não te quer em bom caminho.
- Antônio de Castro

Sentença clara da vida
Que serve em qualquer lugar:
Quem não dá o que lhe sobra
Nega o que deve pagar.
- José Nava

Não olvides,
nem desprezes
A obrigação benfazeja,
Quem faz aquilo que deve
Pode ter o que deseja.
- Ulisses Bezerra

Dor, provação, desengano...
Nem tudo tenhas por mal.
A fonte nasce na furna,
A rosa, no espinheiral.
- Boris Freire

Amor não cria problema,
Nunca censura ou reclama,
Trabalha e perdoa sempre
Sem pedir nada a quem ama.
- Targélia Barreto

Fonte: Trovas do Mais Além — Autores diversos


sábado, 25 de maio de 2013

Desilusões - parte 1/3

Desilusão, ódio, raiva, tristeza e mais uns quantos sentimentos.

Quadras

Ai de quem busca o deserto
De torturas, de descrença:
Morrer é sentir, de perto,
A vida profunda e imensa.

Depois da miséria humana
Sobre a terra transitória,
Lastimo quanto se engana
O ouro da falsa glória.

Dinheiro do mundo vão,
Mentiras da vaidade,
Não trazem ao coração
A luz da felicidade.

Bem pobre é a cabeça tonta
Dos perversos e usurários,
Que morrem fazendo conta
Nas cruzes de seus rosários.

É ditosa no caminho,
Alegre como ninguém,
A mão terna do carinho
Que vive espalhando o bem.

Angústias, derrotas, danos,
Tudo isso tenho visto.
Só não vejo desenganos
Na estrada de Jesus-Cristo.

Belmiro Braga

Fonte: Relicário de luz — Autores diversos


segunda-feira, 20 de maio de 2013

ASSUNTOS DE TEMPO

"Relógio mole no momento
da primeira explosão" (1954),
de Salvador Dalí
Se você já sabe quão precioso é o valor do tempo, respeite o tempo dos outros para que as suas horas sejam respeitadas.
Recorde-se de que se você tem compromissos e obrigações com base no tempo, acontece o mesmo com as outras pessoas.
Ninguém evolui, nem prospera, nem melhora e nem se educa, enquanto 
não aprende a empregar o tempo com o devido proveito.
Seja breve em qualquer pedido.
Quem dispõe de tempo para conversar sem necessidade, pode claramente matricular-se em qualquer escola a fim de aperfeiçoar-se em conhecimento superior.
Trabalho no tempo dissolve o peso de quaisquer preocupações, mas tempo sem trabalho cria fardos de tédio, sempre difíceis de carregar.
Um tipo comum de verdadeira infelicidade é dispor de tempo para acreditar-se infeliz.
Se você aproveitar o tempo a fim de melhorar-se, o tempo aproveitará você para realizar maravilhas.
Observe quanto serviço se pode efetuar em meia hora.
Quem diz que o tempo traz apenas desilusões, é que não tem feito outra cousa senão iludir- se.


Fonte: Sinal Verde - Francisco Cândido Xavier (pelo espírito de André Luiz)


domingo, 19 de maio de 2013

O mensageiro do amor


Jesus aos Discípulos - O Amor e o Conhecimento
Falava-se na reunião, com respeito à preponderância dos sábios na Terra, quando Jesus tomou a palavra e contou, sereno e simples: — Há muitos anos, quando o mundo perigava em calamitosa crise de ignorância e perversidade, o Poderoso Pai enviou-lhe um mensageiro da ciência, com a missão de entregar-lhe gloriosa mensagem de vida eterna. Tomando forma, nos círculos da carne, o esclarecido obreiro fez-se professor e, sumamente interessado em letras, apaixonou-se exclusivamente pelas obras da inteligência, afastando-se, enojado, da multidão inconsciente e declarando que vivia numa vanguarda luminosa, inacessível à compreensão das pessoas comuns. Observando-o incapaz de atender aos compromissos assumidos, o Senhor Compassivo providenciou a viagem de outro portador da ciência que, decorrido algum tempo, se transformou em médico admirado. O novo arauto da Providência refugiou-se numa sala de ervas e beberagens, interessando-se tão-somente pelo contacto com enfermos importantes, habilitados à concessão de grandes recompensas, afirmando que a plebe era demasiado mesquinha para cativar-lhe a atenção. O Todo-Bondoso determinou, então, a vinda de outro emissário da ciência, que se converteu em guerreiro célebre. Usou a espada do cálculo com mestria, pôs-se à ilharga de homens astuciosos e vingativos e, afastando-se dos humildes e dos pobres, afirmava que a única finalidade do povo era a de salientar a glória dos dominadores sanguinolentos. Contristado com tanto insucesso, o Senhor Supremo expediu outro missionário da ciência, que, em breve, se fêz primoroso artista. Isolou-se nos salões ricos e fartos, compondo música que embriagasse de prazer o coração dos homens provisoriamente felizes e afiançou que o populacho não lhe seduzia a sensibilidade que ele mesmo acreditava excessivamente avançada para o seu tempo. Foi, então, que o Excelso Pai, preocupado com tantas negações, ordenou a vinda de um mensageiro de amor aos homens. Esse outro enviado enxergou todos os quadros da Terra, com imensa piedade. Compadeceu-se do professor, do médico, do guerreiro e do artista, tanto quanto se comoveu ante a desventura e a selvageria da multidão e, decidido a trabalhar em nome de Deus, transformou-se no servo diligente de todos. Passou a agir em benefício geral e, identificado com o povo a que viera servir, sabia desculpar infinitamente e repetir mil vezes o mesmo esforço ou a mesma lição. Se era humilhado ou perseguido, buscava compreender na ofensa um desafio benéfico à sua capacidade de desdobrar-se na ação regeneradora, para testemunhar reconhecimento à confiança do Pai que o enviara. Por amar sem reservas os seus irmãos de luta, em muitas situações foi compelido a orar e pedir o socorro do Céu, perante as garras da calúnia e do sarcasmo; entretanto, entendia, nas mais baixas manifestações da natureza humana, dobrados motivos para consagrar-se, com mais calor, à melhoria dos companheiros animalizados, que ainda desconheciam a grandeza e a sublimidade do Pai Benevolente que lhes dera o ser. Foi assim, fazendo-se o último de todos, que conseguiu acender a luz da fé renovadora e da bondade pura no coração das criaturas terrestres, elevando-as a mais alto nível, com plena vitória na divina missão de que fora investido. Houve ligeira pausa na palavra doce do Messias e, ante a quietude que se fizera espontânea no ruidoso ambiente de minutos antes, concluiu ele, com expressivo acento na voz: — Cultura e santificação representam forças inseparáveis da glória espiritual. A sabedoria e o amor são as duas asas dos anjos que alcançaram o Trono Divino, mas, em toda parte, quem ama segue à frente daquele que simplesmente sabe.  

Fonte: Jesus no Lar - Francisco Cândido Xavier (pelo espírito de Neio Lúcio)


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Como procede a ação da prece

O Espiritismo torna compreensível a ação da prece, explicando o modo de transmissão do pensamento, quer no caso em que o ser a quem oramos acuda ao nosso apelo, quer no em que apenas lhe chegue o nosso pensamento. Para apreendermos o que ocorre em tal circunstância, precisamos conceber mergulhados no fluido universal, que ocupa o espaço, todos os seres, encarnados e desencarnados, tal qual nos achamos, neste mundo, dentro da atmosfera. Esse fluido recebe da vontade uma impulsão; ele é o veículo do pensamento, como o ar o é do som, com a diferença de que as vibrações do ar são circunscritas, ao passo que as do fluido universal se estendem ao infinito. Dirigido, pois, o pensamento para um ser qualquer, na Terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece entre um e outro, transmitindo de um ao outro o pensamento, como o ar transmite o som.

A energia da corrente guarda proporção com a do pensamento e da vontade. E assimque os Espíritos ouvem a prece que lhes é dirigida, qualquer que seja o lugar onde se encontrem; é assim que os Espíritos se comunicam entre si, que nos transmitem suas inspirações, que relações se estabelecem a distância entre encarnados.

Essa explicação vai, sobretudo, com vistas aos que não compreendem a utilidade da prece puramente mística. Não tem por fim materializar a prece, mas tornar-lhe inteligíveis os efeitos, mostrando que pode exercer ação direta e efetiva. Nem por isso deixa essa ação de estar subordinada à vontade de Deus, juiz supremo em todas as coisas, único apto a torná-la eficaz.

Fonte: Evangelho segundo o Espiritismo, Capitulo 27 - Pedi e obtereis "Qualidade da prece" item 10.

Tirinhas da Mariana

Tirinhas do Cabeça Oca