terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Médicos Sem Fronteiras já realizaram 500 cirurgias no Haiti


Haiti - first aid
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Há exatamente uma semana, o Haiti vivia as últimas horas que antecediam ao maior desastre no país em 200 anos. A Terra Magazine, a diretora executiva da organização não governamental Médicos Sem Fronteiras, Simone Rocha, conta que já foram realizadas 500 cirurgias e 3 mil atendimentos após o terremoto que deixou a capital Porto Príncipe sob escombros. Mas, segundo ela, ainda restam 500 pacientes à espera de intervenções cirurgicas.

A MSF trabalha até agora com o material estocado em suas dependências para situações emergenciais e mais 135 toneladas de medicamentos que vieram em quatro aviões. Ao longo dessa semana, deve chegar um hospital inflável - com 100 leitos, dois blocos cirúrgicos e duas Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) -, cirurgiões, anestesistas e mais 195 toneladas de medicamentos.

- A grande dificuldade é a triagem no aeroporto e que à vezes desvia os nossos aviões com equipes médicas e equipamento cirúrgico, ambos extremamente necessários nesse momento. Não estamos falando em alimentar mais, ou melhor a população, estamos falando em salvar vidas das pessoas que aguardam cirurgias e que, se não receberem, podem morrer nos próximos dias em decorrência disso.

A primeira intervenção cirúrgica foi um parto. Mãe e filha sobreviveram. "É muito emocionante e significativo", diz Simone, que está no Rio de Janeiro, mas que já trabalhou pela MSF no país caribenho.

Abaixo, a diretora conta como foi o trabalho dos médicos segundos depois do tremor, como prepararam os locais para fazer as cirurgias e como têm trabalhado, "quase sem dormir, ou sem se alimentar" para salvar o máximo possível de pessoas.

Terra Magazine - Na situação atual do Haiti, como está sendo o trabalho da ONG MSF, tendo em vista que já era realizado um trabalho no país anteriormente ao terremoto?
Simone Rocha - Em primeiro, uma geral. Nós fazíamos um trabalho médico no Haiti desde 1991, mais precisamente, com um programa na capital de três hospitais de emergência. Um era de emergência pós-trauma e reabilitação pós-trauma, outro era uma maternidade que oferecia ginecologia e obstetrícia e o terceiro era um serviço de pronto-socorro. Em função disso, já tínhamos um estoque bastante importante, semelhante ao necessário numa situação de urgência. Fora isso, tínhamos um estoque ainda maior do que temos em outros países porque o Haiti é um país que, frequentemente, sofre com tragédias naturais, como tufões, furacões e etc. Então, em Porto Príncipe já havia um estoque importante do tipo de materiais necessários para situações como essa do terremoto.

E do que se trata esse estoque?
Tendas plásticas, lona plástica que serve de abrigo, geradores, água, gasolina - que é o que vai alimentar os geradores. É uma organização de emergência humanitária e, portanto, temos uma vasta experiência nisso. Isso facilitou muito o nosso processo e permitiu que começássemos a trabalhar já nas primeiras horas depois do terremoto. Então, nas primeiras horas, fizemos uma identificação do que tinha acontecido com as estruturas médicas e que saíram a pé pela capital para verificar isso. Depois disso, concluímos que as nossas estruturas estavam inutilizáveis e que esse era o caso da maioria dos hospitais da cidade.

Numa situação dessas, o que fazem?
Começamos, imediatamente, a trabalhar ao lado, ou na parte de traz das nossas estruturas, fazendo triagem dos pacientes e tentando dar conta dos casos mais graves o mais rápido possível. E, muito rapidamente, nos demos conta de que era necessária uma capacidade cirúrgica muito maior do que tínhamos ali. Já no primeiro dia, estimávamos milhares necessitando cirurgia, muitas das quais de nível complexo. A maioria era caso de amputação, como a gente sabe, mas também havia outros casos que necessitavam de fato um bloco cirúrgico e operante. Começamos a identificar locais onde poderíamos realizar essas operações. Conseguimos fazer isso num hospital no distrito Cité Soleil, que já foi dos Médicos Sem Fronteiras. Ali, estabilizamos os pacientes e operamos em dois blocos cirúrgicos.

Houve relato de casos de amputação sem anestesia...
Não nas nossas dependências.

Com essa estrutura quantas cirurgias já foram realizadas?
Foram realizados 3 mil tratamentos e aproximadamente 500 cirurgias. Faltam mais 500 serem feitas em caráter de urgência. Temos doze equipes operando contra o tempo. Temos uma equipe de 550 haitianos, 165 de staff internacional com mais 48 chegando agora nos próximos dias.

Como farão pra trazer mais medicamentos? Uma hora o estoque acaba...
Ainda estamos usando o estoque, mas já conseguimos fazer chegar a Porto Príncipe 135 toneladas, que vieram em quatro aviões de carga.

Se em hospitais em plenas condições corre-se o risco de infecções, numa situação como a que os médicos atendem em Porto Príncipe, o risco é elevadíssimo. Como evitar, ou minimizar esse tipo de situação?
Justamente por isso que é muito importante que montemos os blocos cirúrgicos e que as pessoas todas possam ser operadas em condições ideais, ou o mais próximo possível disso. É justamente isso que estamos tentando fazer. Inclusive enviamos um hospital inflável com capacidade de 100 leitos.

Hospital inflável?
Isso, um hospital re-al-men-te in-flá-vel. São duas tendas enormes, de 100 metros quadrados cada uma e dentro dele tem dois blocos operatórios, duas Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e capacidade para 100 leitos. Era para o hospital ter chegado no sábado, mas na hora do pouso do avião, com o hospital dentro, as autoridades o desviaram para Santo Domingo. Isto está atrasando em 48 horas a chegada desse hospital e isso é grave para nós.

Numa situação como essa, com corpos em putrefação pela cidade afora, pessoas submetidas a condições zero de higiene, sem alimentação e água, o risco de epidemias tomarem conta da capital é altíssimo...
É muito importante que as pessoas recebam tanto abrigo e alimentação quanto cuidados médicos. Se esses três elementos são oferecidos, já é diminuída amplamente a possibilidade de que adoeçam. Ou seja, as epidemias serão menos frequentes. Quanto à questão dos corpos, a natureza das mortes em Porto Príncipe é o trauma, então não é o corpo em si que pode causar epidemias. Um corpo em putrefação de uma pessoa que morreu com um traumatismo é completamente diferente do corpo de quem morre de cólera. Mas mesmo assim, devem ser retirados os corpos, é claro.

A ajuda é suficiente?
A grande dificuldade é a triagem no aeroporto e que à vezes desvia os nossos aviões com equipes médicas e equipamento cirúrgico, ambos extremamente necessários nesse momento. Não estamos falando em alimentar mais, ou melhor a população, estamos falando em salvar vidas das pessoas que aguardam cirurgias e que, se não receberem, podem morrer nos próximos dias em decorrência disso.

Quantos aviões foram desviados do aeroporto?
Dois aviões.

Um problema apontado é a ausência de água potável. Porto Príncipe sempre se caracterizou por ser uma cidade que enfrenta esse tipo de problema, agora agravado com o terremoto. Vocês já tinham um sistema próprio de tratamento?
A gente sempre tem. Como somos uma organização de saúde, sabemos que sem água é impossível trabalhar. Portanto, essa é uma das nossas primeiras preocupações. Sempre. Em Porto Príncipe já tínhamos um sistema de abastecimento. Trabalhávamos com caminhões pipa e alguns deles estão sendo usados agora. Mas já existia um sistema de busca e tratamento de água. Usamos o cloro para fazer isso.

Como é a relação da MSF e outras entidades no Haiti?
Nesse momento, estamos cuidando de fazer o máximo para trabalhar contra o tempo. As equipes estão trabalhando com pouquíssimas horas de sono e tempo para se alimentar. Então, realmente sobra muito pouco tempo para troca de informação. Eu imagino que as equipes de lá estejam certamente em contato com as pessoas que controlam o aeroporto, por exemplo, e com tudo aquilo que interfere diretamente do trabalho realizado.

Quantas pessoas chegaram a falecer nas dependências dos MSF? E o que é mais importante para evitar que isso aconteça?
Não tenho esse dado ainda. Para nós, é muito importante ampliar nossa capacidade cirúrgica. Tem mais 195 toneladas de medicamentos, mais cirurgiões, mais anestesistas e mais seis aviões programados para chegar ao longo dessa semana. É muito importante que tenhamos acesso a esses recursos que estamos enviando o mais rápido possível.

Claro...
Em meio a tantas coisas tristes, estamos fazendo partos. Olha, a primeira cirurgia que fizemos depois do terremoto, foi um parto complicadíssimo. Salvamos mãe e filho. É emocionante e muito significativo.

Fonte: Terra Magazine

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