terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Do Haiti, presidente da Viva Rio nega surto de violência




Presidente da organização não governamental Viva Rio, Rubem César está em Cité Soleil, distrito de Porto Príncipe, capital haitiana sob escombros. A Terra Magazine, ele desmente existir cenário violento uma semana após o terremoto que já enterrou 70 mil. Segundo ele, está dentro do previsto Terra em situações como esta.

- Não há nada aqui que não seja facilmente comparável a como ficou Nova Orleans (EUA) depois do furacão Katrina (em 2005) - compara.

"As pessoas estão se organizando. Já tem até um mercadinho aqui. Comprei pão e comida. Há um clima de respeito", comemora e destaca que a ausência de dinheiro em espécie é um limitador maior do que imaginava: "Com dinheiro, conseguiríamos estimular trabalho. Só a quantidade de entulhos aqui, nossa, geraria muito trabalho retirá-los daqui".

Segundo Rubem, há boas notícias. Enquanto concedia esta entrevista, chegaram dez caminhões com mantimentos, tendas e um carro da República Dominicana e Noruega. "Os brasileiros poderiam se mobilizar mais para fazer o mesmo", ressalta.

Neste momento, a Viva Rio abriga 1.600 pessoas. Mas, segundo o presidente, acabaram assumindo o cuidado das tendas que estão nos arredores, ou seja, "multiplica esse valor por dez", estima.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Terra Magazine - Como está a situação aí?
Rubem César - Acho que a imprensa mundial está fazendo um desserviço porque está pintando um quadro de violência que não é verdadeiro. Nada que não seja facilmente comparável a como ficou Nova Orleans depois do furacão Katrina, por exemplo. Estou o tempo todo na área mais pobre e mais afetada da cidade, que é Cité Soleil, e, em nenhum segundo, enfrentamos esses problemas.

Que problemas enfrentam, então?
Logística e organização. Temos um campo de desabrigados aqui. As pessoas estão se organizando. Já tem até um mercadinho aqui. Comprei pão e comida. Há um clima de respeito, uma coisa muito diferente do que noticiam. Ficamos recebendo emails de familiares apavorados com as notícias de violência. Mas tenho uma boa notícia...

Qual?
Nós estamos recebendo dez caminhões de doações da Noruega e da República Dominicana, com tendas, alimentos, equipamentos de purificação de água, um carro, muita coisa. São caminhões enormes, ouça o barulho deles chegando, estão chegando agora... Que maravilha! Olha, é muito importante que as doações aí no Brasil também cresçam para que mostremos nossa solidariedade para com a população daqui.

De onde vêm esses caminhões?
São caminhões que vêm da Noruega pra gente. Não chegou nenhum do Brasil. Montamos um esquema e vieram. Eles desembarcam na República Domenicana e viajam para cá. Isso é possível. Chegaram doações brasileiras para o Exército, o que já é muito bom também. Eles nos deram água, muito importante. Mas tem o caminho da sociedade, que pode aumentar seu trabalho de doações. O governo brasileiro e o Exército estão trabalhando duro. Quanto mais doações, melhor.

O senhor fala da sociedade brasileira?
Tem o governo, mas a sociedade poderia se mobilizar mais.

Qual é o principal desafio?
O principal desafio agora é trabalho. Precisamos de doações, claro, mas o que é necessário mesmo é que essa população possa trabalhar e seja remunerada por isso. Isso levanta o moral. A reconstrução criará muita oportunidade de trabalho.

Dificuldades?
Sim, claro. Nosso maior problema, nesse momento é dinheiro. Queremos pagar as pessoas, não temos dinheiro e nem bancos. Um outro problema também é a falta de combustível. Com relação à água, estamos nos virando, temos nossa própria fonte aqui na Viva Rio e recebemos doações do Brasil. Mas combustível e dinheiro, nossa... Com dinheiro conseguiríamos estimular trabalho. Só a quantidade de entulhos aqui, nossa, geraria muito trabalho retirá-los daqui. O cenário está próximo de "O Exterminador do Futuro", sabe? Tudo totalmente destruído. Tem muito trabalho aqui... trabalho pra muita gente e que pode render, mas não tem como pagar as pessoas...

Quantas pessoas estão abrigadas aí?
Dentro do nosso centro, 1.600 pessoas. Mas acabamos assumindo o cuidado das tendas que estão nos arredores, ou seja, multiplica esse valor por dez.

Fonte: Terra

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